Crônicas de uma Exploradora do Invisível.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Língua de sangue

O inspetor resolveu deixar de lado o bloco de papel e a caneta e cruzou as mãos por cima da mesa, encarando a detenta de máxima periculosidade. Era uma mulher muito jovem, ou assim lhe parecia, conhecendo sua ficha de antemão. Alguém que retalhou quase metade dos homens da penitenciária municipal, com uma faca e requintes de crueldade, deveria ser um pouco mais velha, ter um rosto mais duro. Mas ele sabia que estava tentando justificar a maldade para si mesmo, mais uma vez. Depois de quase dez anos em sua profissão, ele já devia ter pegado uma certa manha para lidar com o tipo de gente que serve de inspiração para histórias de terror; mas Luiz Roberto Machado era, também, um homem muito jovem.
- Conte-me sua história – ele pediu.
Alexandra inclinou a cabeça para um lado, num gesto curiosamente felino.
- Minha história?
- Sim. O que a motivou a agir dessa maneira.
- Minha motivação – repetiu ela, lentamente, pensando no que cada palavra significava.
- Por quê e para quê.
- Acho que vou desapontá-lo, inspetor – ela olhou nos olhos dele e seu rosto foi tomado por uma expressão suave, quase um sorriso – Eu não tive uma razão que me guiasse a mutilar aqueles homens. Nenhum deles era meu conhecido, eu não sabia qual crime cada um havia cometido. Eles não eram especialmente repulsivos: eu fiz porque senti vontade.
O inspetor deixou um longo minuto se passar antes de replicar.
- Você apenas sentiu vontade.
- Simples assim. É claro que o senhor não pode entender.
- Somente se você me explicar.
- Eu pareço uma criminosa?
- Criminosos não têm uma aparência específica. Especialmente os sociopatas.
- Mas o senhor concorda que eu não pareço o tipo de pessoa que invade uma prisão com uma faca e executa castração amadora em mais de cinquenta internos.
- Isso é verdade.
- Bem... Se eu parecesse esse tipo de pessoa, o senhor se daria o trabalho de questionar minhas motivações? Ou também não existe uma aparência para esse tipo de “justiceira”?
- Honestamente, você é a primeira que eu conheço.
- Que sorte a sua.
Alexandra abriu a garrafa de água à sua frente e bebeu, tomando cuidado com suas algemas.
- O senhor não poderia entender por que uma mulher pega numa faca contra um homem, qualquer homem. É porque não temos a força deles nas mãos e precisamos de um adendo.
“Por que uma mulher sente prazer em ver um homem se curvar de dor segurando os órgãos genitais pendurados por um fiapo de pele? Porque o homem tem o poder de subjugar uma mulher a qualquer momento, com as mãos nuas, movido apenas por um pau duro. Por que um homem no chão, retorcido numa poça do próprio sangue fluindo do corte no testículo, me faz sorrir? Porque eu gosto mais de vermelho do que de branco, inspetor. E, principalmente, porque a visão do sangue dele me poupa de ver o meu próprio sangue.
“Não pense que eu fiz o que fiz em nome das mulheres. Não pense que eu odeio todos os homens. Eu simplesmente quis ter o poder nas minhas mãos uma vez. E outra vez. E mais uma, e quantas vezes possível. É algo viciante, sabe. Não, não sabe. Como eu disse, o senhor não pode saber. Ainda bem. Imagine se todos fossem iguais a mim, viciados em poder. Que mundo bárbaro seria!”
Dividido entre o desejo de saber mais e o de ser poupado daquilo, o inspetor finalmente fez a pergunta seguinte: como aquilo tudo havia começado.
- Minha casa foi invadida por um ladrão. Um idiota. Cortou a luz para entrar. Como se eu não conhecesse minha própria casa! Consegui nocauteá-lo, amarrei ele numa cadeira. Pouco depois ele acordou, e eu me senti uma domadora de circo. Ele era um bicho que ia se soltar a qualquer momento e comer minha cabeça. Mas ele não se soltou, e eu ainda tinha minha faca. Comecei a conversar com ele. E ele me disse o que ia fazer comigo quando conseguisse sair dali. Pra resumir, disse que ia me fazer ficar de joelhos e chupar o pênis dele até ele gozar. Mas ele ia ser bonzinho e não fazia questão que eu engolisse. Eu ia poder cuspir, se quisesse.
“Então eu fiquei de joelhos, abri a calça dele e, com a minha faca japonesa de fazer sashimi, cortei o testículo esquerdo. Foi muito rápido, sabe. A faca estava bem afiada porque eu estava usando quando ele chegou. Então ele não sofreu com o corte em si. Mas a visão do sangue fez ele se mijar todo. Eu fiquei longe do mijo e peguei o sangue com a faca.
“Aí... Sabe o que eu fiz?”
Alexandra estava sorrindo agora, inclinada sobre a mesa na direção do inspetor, muito parado do outro lado. Ele moveu os lábios com dificuldade e perguntou o que ela fez.
- Eu lambi mesmo o sangue da faca. Não foi bom nem ruim. A faca cortou um pouco a minha língua, eu só vi depois. Aí fui pra trás da cadeira, segurei ele pelos cabelos e cuspi o sangue todinho na cara apavorada dele. Não gritava mais coisa com coisa. Não conseguia nem me xingar com coerência. Um pouquinho depois a polícia chegou. Os vizinhos que chamaram porque ouviram os gritos dele. E depois, o senhor já sabe.
Luis Roberto se mexeu, sentindo pela primeira vez como a pequena sala de interrogatório estava fria. Puxou o bloco de papel fechado para perto, hesitou por um momento e fez menção de se levantar.
- Qual é o meu diagnóstico? – Ela perguntou, ainda sorrindo.
- Não sou psicólogo.
- Eu sei. O senhor é um homem íntegro, sensível o bastante para sentir pena de um bandido. Não pegaria numa faca nem se ameaçassem sua esposa. Eu quero saber o que um homem como o senhor pensa de mim.
O inspetor mastigou suas palavras antes de responder:
- Você é uma mulher fria... Não, não exatamente fria, mas que age com frieza. Não tem parentes próximos ou relações estreitas, pois não se importou em cometer os seus crimes e recebeu sua punição com tranquilidade. Quando posta sob pressão, reagiu com selvageria calculada. Imagino que toda a sua vida você passou em estado de inércia e esse episódio foi o momento em que essa natureza crua se manifestou. Você parece em paz consigo mesma.
- Eu estou.
- Não há vestígio nem da ideia de arrependimento em você.
- Com certeza não.
O inspetor arrastou a cadeira e se levantou.
- Eu não sei quem você era antes disso, Alexandra, mas tenho certeza de que somente agora você se tornou quem verdadeiramente é.
Ele começou a se afastar.
- Inspetor.
Ele parou com a mão na porta.
- Eu não tenho muita certeza de quem sou agora, mas sei muito bem de uma coisa.
Eles se encararam por um momento, olhos castanhos quase negros, olhos castanhos quase verdes.
- Eu não sou uma vítima.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Devaneio

Uma lembrança pesa mais do que um sonho
Sobre a minha cabeça
No final das contas

Uma lembrança é uma marca de desejo
Cinco digitais sobre este corpo
Mais uma fileira de dentes

Uma lembrança afunda no estômago
Enquanto o sonho sobe pra cabeça

A lembrança é o recorte de um momento
É muito mais do que alcança um devaneio
Mesmo sem um rastro de sentimento
Até onde vão o seu e o meu reino

Uma lembrança suja e errada
Feita no meio da escada
Será tudo o que podemos ter,
E se este for o resultado final
Eu aceitarei mesmo sem o seu aval
Será o suficiente
Porque eu farei ser.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Voltar a morrer

Você olha para cima e vê a mão que desce feito um borrão. Depois, gira atordoada esbarrando nos móveis, esperando recuperar o equilíbrio que vem antes da dor. A voz por trás da mão grita, mas seu próprio sangue latejando a impede de ouvir. A mão desce mais uma vez, sobre outra parte do seu corpo. E ainda outra vez, fazendo com que você se curve sobre o braço do sofá que encontrou pelo caminho. Longos braços descem sobre você vezes sem conta. Você pensa que depois de tantos anos já devia ter se acostumado, mas esse é o sentido da dor: ser sempre nova.

A noite passa e o dia chega bem cedo. A mão desaparece guiada por seu dono, que cospe algumas ordens na mesa da cozinha. Você se ajeita como pode e sai para obedecê-las.

No caminho para o mercado um velho amigo te avista de longe. Ele te tira da rota das ordens e te leva para a casa dele, que também é uma espécie de santuário. Ele não defende religiões, mas uma espécie de magia. Algo em você desperta para essa palavra, algo quente e esquecido que faz todas as suas dores reacordarem também. Ainda assim, e por causa disso, você o segue.

Ele lhe diz outra vez tudo o que você já sabe. Perde a paciência. Te chama de fraca. Você chora. Ele pergunta se você aceitaria a ajuda que ele tem guardada no quarto. Explica que o único socorro para você está lá. Você o segue e se acha diante de uma parede coberta de espelhos.

Sua imagem arruinada às dezenas reflete a mesma acusação. Você fecha os olhos por um momento e ouve sua voz ecoando do lado de dentro, do fundo do estômago, empurrando os pulmões. Se você abre os olhos, ela está na sua frente. Se você volta a se fechar, ela clama dos seus intestinos, ameaça se pendurar numa das costelas. Então você diz que aceita a ajuda.

O velho amigo diz para você se deitar na banheira de porcelana que ele tem no banheiro sem porta, no fim do corredor. Você se deita na banheira vazia, inteiramente vestida.

Ele pede desculpas e tampa a banheira com uma placa de mármore, te deixando no escuro tão rápido como se você tivesse apenas piscado mais uma vez. Mas a escuridão não vai embora quando você arregala os olhos. A tampa fria não se move quando você a empurra com as duas mãos. O som da sua voz parece não ir a lugar nenhum fora dali enquanto você se perde em perguntas e súplicas ao perceber que a banheira está se enchendo de água.

Então a voz do velho amigo vem de muito longe, pedindo a você que não se desespere. Aquela é a sua ajuda, e ela não é o que parece.

A água te cobre por inteiro e você conta os segundos enquanto o seu fôlego acaba. Seus braços e pernas se esticam, esmurrando e empurrando as extremidades da banheira. O escuro te abraça. O frio da água chega embaixo das suas roupas como um carinho. Você vai morrer, e está gelada de desespero, mas há algo no frio que te acalenta apesar de tudo. São como braços abertos que você sente surgir de dentro de si. Você esquece quantos segundos já contou e entra naquele abraço, sentindo todo o seu medo se misturar ao breu, sua fraqueza se desprender dos ossos; cada sentimento abandona o seu corpo antes de você. Diante do vazio você percebe o quanto foi uma pessoa medíocre. Sente que não vai fazer falta nenhuma.

Você passa pela morte e ela lhe dá um breve aceno. Logo depois você está de volta à banheira, de olhos bem abertos, empurrando a tampa e emergindo de volta à luz do dia.

E você está com muita raiva.

O velho amigo está sentado numa cadeira de plástico ao lado da porta, esperando. Sua raiva não é por ele. Você não compreende como, mas entende que recebeu a ajuda de que precisava. Ao sair da banheira você percebe que a água está negra como se toda a cor das suas roupas tivesse saído nela. 

Você se sente estranhamente vazia, como se naquela água tivessem ficado realmente o seu medo, a sua fraqueza, a sua covardia, a sua abnegação e a sua boa vontade. Em seu novo estado você só sente a calmaria da limpeza, que convive em paz com uma raiva imensa e concentrada.

Você agradece ao velho amigo e volta para casa, deixando um rastro de água pelo caminho. Antes você tinha os olhos sempre meio abertos, sem mirar diretamente a nada e ninguém. Agora você é capaz de andar com olhos atentos e sentir desprezo em lugar de intimidação. E pelo quê? Pela vida, tão somente. Sua própria vida que até hoje se moveu sem sentido, por inércia.

Você chega em casa. É o final da tarde. A mão e seu dono estão lá, fervilhantes à sua espera. Afrontados pelo seu atraso. Ele lhe cospe mais palavras em cima. Pergunta por que porra você está toda molhada. E sem esperar, te olhando sem te ver, ele vai erguer a mão mais uma vez.

Quando você olha pra cima, vê a mão se deter por um momento, o momento de ganhar impulso antes de se tornar um borrão descendo. Mas a mão e seu dono param, e os olhos dele se arregalam para você como se pela primeira vez percebesse que é uma estranha, e não a mulher com quem vive há cinco anos. E os olhos ficam grandes de medo ao ver o sorriso no seu rosto.

A mão desce em seu impulso, mas desta vez é aparada pelo seu braço. Os olhos crescem mais, e o sorriso fala:


- Hoje não.